5. INTERNACIONAL 5.6.13

1. ESSE SUJEITO  UM PERIGO
2. MALVADA VODCA
3. AS GANGUES DO TERROR
4. IMPUNES E ATIVOS

1. ESSE SUJEITO  UM PERIGO
Auxiliar de Obama  um escndalo: alm de mentir sob juramento, ele criminaliza o jornalismo na terra da Primeira Emenda.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK 

     De incio, era apenas um escndalo. Eric Holder, secretrio de Justia americano, cargo que equivale ao de ministro da Justia no Brasil, deu ordens para investigar um jornalista da Fox News, TV a cabo cujo noticirio  altamente crtico ao governo de Barack Obama. O jornalista, James Rosen, reprter da Fox em Washington, divulgara uma matria on-line em 2009 noticiando a descoberta pela CIA de que a Coreia do Norte pretendia responder s sanes das Naes Unidas com a realizao de novos testes nucleares. A informao era secreta e no deveria ter ido parar na imprensa. O governo Obama, implacvel que tem sido com os vazamentos, abriu uma investigao  e, em vez de limitar seu foco no vazador suspeito, Stephen Jin-Woo Kim, ento analista do Departamento de Estado, resolveu abrir as baterias contra o reprter, acusando-o de espionagem, quando ele apenas cumpria seu dever jornalstico de informar o que sabe. 
     O segundo escndalo se materializou quando a notcia da investigao contra o jornalista foi examinada  luz de um depoimento recente de Eric Holder no Congresso. Sob juramento, Holder depunha sobre a investigao de outro vazamento de informao sigilosa, desta vez divulgada pela agncia de notcias Associated Press (AP). A certa altura, Holder foi indagado por um parlamentar a respeito do uso da lei de espionagem, de 1917, para processar criminalmente jornalistas que divulgam material sensvel. Ele descartou a ideia: "Nunca me envolvi numa coisa assim e nunca pensei que fosse uma poltica eficaz". Pronto. Estava feito o escndalo dentro do escndalo: o governo ameaa jornalistas com o faco da lei da espionagem e o secretrio mente sobre o assunto aos parlamentares. 
     Logo depois de Holder dizer no Congresso que nunca se envolvera em processos contra jornalistas, o jornal Washington Post divulgou a ntegra do pedido de quebra de sigilo dos e-mails do reprter da Fox News. O pedido, de 44 pginas, tem passagens assustadoras. Diz que o reprter  suspeito de violar a lei de espionagem ao atuar como "ajudante, cmplice e/ou coconspirador" no vazamento da informao sobre a Coreia do Norte. Holder aprovou o pedido antes de ser apresentado  Justia. A Cmara dos Deputados abriu uma investigao para apurar se ele tentou enganar os parlamentares. Se for comprovado que mentiu, Holder poder pegar at cinco anos de cadeia.  difcil que isso acontea, mas, se chegar a tanto, ser a primeira vez que um secretrio da Justia e procurador-geral sai do governo direto para o xadrez. 
     Para aliviar a barra de Holder, sua pasta apressou-se em divulgar que jamais teve a inteno de acionar criminalmente o reprter da Fox. De fato, o vazador Stephen Kim foi indiciado em agosto de 2010 e o reprter acabou no sendo acusado de nada. Mas, diante do que se l no pedido de quebra de sigilo, pouco importa. Ali, o reprter  tratado como espio. Confunde-se jornalismo com espionagem. Criminaliza-se o jornalismo na terra da Primeira Emenda, que garante a liberdade de expresso e imprensa. O pedido narra a cronologia do caso e mostra que o governo bisbilhotou em detalhes as comunicaes do reprter com a fonte, mesmo quando j tinha informao suficiente para pedir a punio do vazador. Investigaram os telefonemas do reprter, suas entradas e sadas no Pentgono. Descobriram at que os dois usavam codinomes. O jornalista era "Alex". A fonte era "Leo". 
     O uso da lei para intimidar jornalistas que divulgam segredos de estado j foi cogitado no governo de Richard Nixon (1969-1974), quando o Washington Post e o New York Times divulgaram os clebres "Pentagon Papers", que revelavam a histria secreta da Guerra do Vietn. No governo de George W. Bush (2001-2009), a mesma cogitao foi feita pelo ento procurador-geral Alberto Gonzales, sob a alegao de que informaes sensveis no podiam cair em mos inimigas. A diferena  que em nenhum desses governos a perseguio aos jornalistas saiu do terreno da mera cogitao. O governo de Obama  o primeiro a usar a lei contra um jornalista perante uma corte federal. As consequncias disso podem ser dramticas, alterando o equilbrio histrico entre governo e imprensa nos Estados Unidos. Jornalistas passaro a ter receio de divulgar informaes sensveis? Procuradores se sentiro autorizados a pedir a priso de jornalistas? 
     H uma tenso incontornvel entre os imperativos de segurana nacional e a liberdade de imprensa. A busca de um equilbrio, no entanto, no pode ser usada como pretexto pelo governo para espionar e intimidar os jornalistas. O presidente Obama, como sempre, diz as coisas certas enquanto preside sobre coisas erradas. Em discurso na semana anterior, Obama informou que pediu ao Departamento de Justia a reviso de seus mtodos de investigao e afirmou: "Jornalistas no podem ser legalmente ameaados por cumprir seu dever". O problema  que  exatamente isso que est acontecendo no seu governo sob a batuta de Eric Holder  a quem Obama tem dado apoio integral diante das presses por sua demisso. Quando Obama for obrigado a, como dizem os americanos ("put your money where your mouth is"), ou seja, a agir conforme fala, ele vai enfrentar um problemo. Manter Holder no cargo e desautoriz-lo ao mesmo tempo no  uma opo. 


2. MALVADA VODCA
A Rssia foi o nico dos grandes pases emergentes em que a expectativa de vida diminuiu em 2012, como consequncia do consumo excessivo de lcool.

     Poucas coisas so to associadas  Rssia quanto a vodca. Diminutivo da palavra voda, o termo russo para gua, a bebida  consumida  tarde ou  noite, em especial durante o inverno. O consumo excessivo do destilado  um esteretipo nacional que se tornou um grave problema de sade pblica. O governo estima que cada russo beba 18 litros de lcool por ano, mais do que o dobro do mximo recomendado pela Organizao Mundial de Sade (OMS). Uma em cada cinco mortes no pas est relacionada ao lcool. No ano passado, o vcio foi o principal responsvel pela queda na expectativa de vida russa, o primeiro retrocesso desde 2003. Um russo nascido em 2012 viver, em mdia, 69,7 anos em vez dos 69,8 anos calculados em 2011. Apesar de pequena, a queda no ndice surpreende porque segue uma tendncia oposta ao que se espera de uma nao emergente. Em meio s conquistas recentes da medicina e ao crescimento da riqueza no pas, era de esperar um aumento na expectativa de vida. Em comparao, estima-se que os brasileiros e os chineses nascidos em 2012 vivam at os 73,8 anos, e o ndice s melhora ano aps ano. 
     A ONU prev que, em 2050, haver 116 milhes de pessoas na Rssia, 30 milhes a menos do que hoje, em parte como consequncia da reduo da expectativa de vida. O famoso destilado  apenas um dos viles. Pela garganta dos russos tambm descem cerveja, vinho e usque em quantidades recordes. Os bitos relacionados ao alcoolismo so causados principalmente por doenas e por suicdio. Alm disso, sob a influncia do lcool, 30.000 russos morrem anualmente em acidentes de trnsito. Dos 12.000  assassinatos ocorridos em 2010, 75% foram cometidos por bbados. 
     O problema  antigo. No sculo XVI, o primeiro czar russo, Ivan, o Terrvel, abriu tavernas estatais, chamadas de kabaks. Em 1648, um tero da populao masculina do pas estava em dvida com as kabaks. Nos tempos da Unio Sovitica, a mesma proporo da fora de trabalho se ausentava do servio por embriaguez. Em 1985, o dirigente Mikhail Gorbachev lanou uma campanha para reduzir o alcoolismo, com o objetivo de aumentar a produtividade no pas. Ele restringiu a venda de lcool e destruiu destilarias caseiras. Seu erro foi acreditar que o alcoolismo era a causa, e no o sintoma, das mazelas sociais do comunismo. Inicialmente, a expectativa de vida teve um pequeno aumento, mas a produtividade dos russos, no. Os prejuzos de 28 bilhes de rublos provocados pela reduo do comrcio de bebidas apenas acentuaram o declnio econmico da Unio Sovitica. O presidente Vladimir Putin agora tem o desafio de combater o problema de forma duradoura. 
TATIANA GIANINI


3. AS GANGUES DO TERROR
Com dinheiro e um discurso de vitimizao social os radicais islmicos recrutam pequenos bandidos europeus para engrossar as fileiras da jihad.

     Oferecer alento a cidados que enviesaram pelo mundo do crime  uma prtica comum entre as religies. As promessas de acolhimento e salvao so muitas vezes profcuas e levam traficantes de drogas e batedores de carteira a abandonar a bandidagem. Outra coisa  recrutar essas pessoas para propagar a intolerncia e induzi-las a matar inocentes. Essa  a ttica perversa que tem sido usada por grupos fundamentalistas islmicos europeus. Membros de gangues de rua tm sido aliciados por clrigos radicais em nome do que consideram, uma guerra santa contra o Ocidente. Michael Adebolajo, de 28 anos, e Michael Adebowale, de 22, que mataram a facadas o soldado ingls Lee Rigby no ms passado, em Londres, pertenciam a gangues antes de se converterem ao Isl. Adebolajo fazia parte de um grupo envolvido com o trfico de drogas e com assaltos e Adebowale era membro da Woolwich Boys, formada por jovens muulmanos de origem somali. Alexandre D., que feriu a facadas o militar francs Cdric Cordiez em Paris no sbado 25, tambm cometeu pequenos delitos antes de se converter. O aliciamento frequentemente ocorre nas prises. Atualmente, 22% da populao carcerria jovem inglesa  de muulmanos. 
     A motivao dos convertidos ao terror  semelhante  que leva os jovens a aderir s gangues de rua: a averso aos valores da sociedade e o desejo de pertencer a algum grupo conivente com seus crimes. Em alguns casos, o convite vem acompanhado de dinheiro. "As entidades terroristas em geral tm estruturas organizadas, com extensas folhas de pagamento para os seus membros", diz o historiador ingls Robin Simcox, pesquisador do Henry Jackson Society, centro de estudos geopolticos em Londres. O que os radicais convertidos no percebem  que so manipulados por seus lderes. Pelo menos trs seguidores de Anjem Choudary, um dos fundadores do grupo extremista Al-Muhajiroun, com o qual Adebolajo se envolveu, foram condenados depois de cometer atos de terrorismo. Choudary, porm, jamais foi preso. 
TATIANA GIANINI


4. IMPUNES E ATIVOS
O Ir  acusado de ordenar o atentado de 1994 na Argentina e de ainda manter clulas terroristas na Amrica Latina.

     Quase vinte anos depois da exploso de um carro-bomba em frente do prdio da Associao Mutual Israelita Argentina (Amia), que matou 85 pessoas e feriu mais de 300 no centro de Buenos Aires, foi finalmente concluda a investigao que aponta os mandantes do atentado. Na semana passada, o procurador especial Alberto Nisman apresentou  Justia argentina uma denncia de 500 pginas em que acusa o governo do Ir de ter organizado o ataque. Funcionrios iranianos j haviam sido citados em investigaes anteriores, e oito deles tiveram a ordem de priso expedida pela Interpol, mas  a primeira vez que o regime dos aiatols  formalmente acusado. ''H inmeras provas da ao da Repblica Islmica do Ir, que h dcadas monta bases para aes terroristas em vrias partes da Amrica Latina por meio de seu apndice, o grupo libans Hezbollah, diz Nisman. 
     O governo iraniano, segundo o relatrio do procurador argentino, montou na regio uma extensa rede de espionagem e logstica para financiar e planejar  aes terroristas. Alm da Argentina, as clulas iranianas seguem ativas em diversos pases latino-americanos, inclusive no Brasil. Nisman aponta a Mesquita Profeta Mohammad, no bairro do Brs, em So Paulo, como um local de "reunies habituais" do Hezbollah. A denncia afirma ainda que vrios centros islmicos comandados por ex-alunos do clrigo Mohsen Rabbani, que j recrutou trs dezenas de brasileiros para seus cursos de radicalizao religiosa, como revelou VEJA em 2011, so ameaas potenciais. Rabbani, ex-adido cultural na Embaixada do Ir na Argentina, foi o arquiteto do ataque contra a Amia. Alm de Rabbani, entre os foragidos da Interpol est o atual ministro da Defesa do Ir, Ahmad Vahidi, que em 1994 comandava as operaes da Guarda Revolucionria com o Hezbollah. Em 2011, ele foi  Bolvia para inaugurar, ao lado do presidente Evo Morales, a Escola de Defesa da Alba, uma academia militar de orientao bolivariana com instrutores cedidos pelo Ir. A Bolvia, pas-membro da Interpol, tinha a obrigao de prender Vahidi, mas no o fez. "O presidente venezuelano Hugo Chvez facilitou a expanso iraniana na regio com a ajuda de seus aliados", diz o consultor de segurana americano Joseph Humire. A presidente argentina Cristina Kirchner est entre os que seguiram essa orientao, e at firmou neste ano um memorando com o Ir para uma investigao conjunta sobre o atentado de Amia. O relatrio de Nisman  um duro golpe nesse plano estapafrdio. 
LEONARDO COUTINHO


